segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Agricultura e agronomia


QUANDO olhamos para os últimos 80 anos da história brasileira, encontramos, na base do nosso progresso, um formidável avanço tecnológico na agronomia. Foi ela que abriu os horizontes de nossa agricultura e, a partir daí, criou o mercado para os produtos industriais e serviços da moderna economia.
Se não fosse a tecnologia agronômica, nossa poderosa indústria citrícola não existiria: os pomares teriam desaparecidos nos anos 40, destruídos pela "tristeza". Os canaviais teriam sido eliminados pelo carvão e pelo mosaico nos anos 50. Os cafezais, nos anos 60, pela ferrugem. Não teríamos o milho híbrido nem o melhoramento do algodão. A soja não progrediria tanto com as novas variedades. Frutas, verduras e flores não teriam se desenvolvido da mesma forma.
Para onde quer que voltemos nossos olhos - grãos, raízes, fibras, frutas, legumes, pastagens, florestas - encontramos o testemunho formidável do trabalho dos engenheiros agrônomos, estes heróis que, somando sua luta à dos agricultores brasileiros, construíram o Brasil, hectare por hectare, semente por semente, décadas e décadas de anônima dedicação.
Só por isto, por seu esforço nas áreas de pesquisa, ensino, extensão, produção, deveriam ser respeitados, admirados e decantados pela sociedade urbano-industrial de hoje. Mas não o são. Já foram, em passado recente, quando, nas cidades do interior, o agrônomo era tão importante quanto o juiz, o promotor, ou o presidente da Câmara Municipal. Por que isto mudou? O que mudou? Por que perderam valor perante os olhos dos cidadãos urbanos? E, mais ainda, o que fazer para resgatar esta verdade? Esta justiça?
Afinal, os agronegócios representam 21% do PIB nacional, ou 25% do total de produção do país. Empregam 37% dos trabalhadores brasileiros e correspondem a 40% das nossas exportações, sendo o único grande setor superavitário da balança comercial. São, portanto, o maior negócio do país. E têm a maior importância social, pela geração de empregos.
No entanto, falta o proporcional peso na política: o agronegócio perdeu poder político, apesar de as lutas de alguns parlamentares que representam com dignidade o setor no Congresso Nacional. A agricultura perdeu poder político. Os agricultores perderam espaço, superados que foram por outros setores mais ágeis e melhor organizados. Daí a diminuição da importância social do agricultor e do técnico do setor. Eles são os condutores deste segmento politicamente decadente, apesar de a força social e econômica que detêm. Portanto, só a valorização do setor rural poderá catapultá-los para o espaço a que fazem jus, e ao qual têm pleno e legítimo direito.
Para encaminhar esta questão, é preciso compreender o que vem acontecendo: o dia em que caiu o Muro de Berlim representou uma data emblemática para a humanidade. É possível dizer que não houve um único cidadão do planeta que tenha escapado das conseqüências daquela efeméride. Longe da realidade está quem imagina que ali só se desvaneciam os sonhos utópicos do comunismo. Ou que estava proclamada a vitória do capitalismo. Longe, muito longe, disso.
Naquela data, dois veteranos conhecidos do homem se uniram em um matrimônio assustador: a globalização, velha senhora que vinha operando desde os vikings, com o liberalismo, ancião que já assombrara a Europa em outras eras. E esta veterana dupla pariu duas bestas apocalípticas que passaram a galopar sem bridão pelo mundo afora, destruindo esperanças, destroçando instituições e estruturas consolidadas e apeando governos das mais diversas colorações: a concentração de riqueza e a exclusão social, gêmeas e inseparáveis irmãs, que chegam ao início do terceiro milênio como a maior ameaça às democracias.
A agricultura brasileira não escapou da sanha de ambas, porque as conheceu juntamente com outras duas mudanças que ocorreram intramuros: a estabilização da moeda e a falência das políticas públicas para o campo, tudo no começo dos anos 90.
Esta louca mudança de cenários em curto espaço de tempo (de um país fechado com alta inflação e governo intervencionista, para um país "arrombado" comercialmente, com inflação civilizada e Estado falido) levou o setor rural a sofrer uma perda de renda insuportável. No gráfico 1, preparado a partir de dados da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, é mostrado com clareza que entre 1980 e 2000, embora a área plantada no país não tenha crescido, os agricultores incorporaram tecnologia, aumentaram a produtividade por área e levaram a produção física a um incremento de 40%. No entanto, o valor desta produção assim acrescida, caiu, no mesmo período, outros 40%.


Isto explica porque, na transição de um cenário para o outro, os agricultores brasileiros se tornaram partícipes ativos de duas gigantescas revoluções: uma barulhenta e outra silenciosa. A revolução barulhenta está sendo executada pelos excluídos e pelos em via de ...
Recente trabalho do técnico do MA, Antonio Lício, demonstra que nos primeiros sete anos da década passada a agricultura desempregou cerca de dois milhões de pessoas, sem contar as centenas de milhares de pequenos produtores que perderam tudo o que tinham em função dos ajustes de índices dos planos Collor e Real, quando o descasamento entre dívidas e preços criou um fosso irreparável entre devedores e credores. Esta exclusão brutal bem que justifica o crescimento dos chamados movimentos sociais, como o MST. Não importa se tais movimentos se tornaram político-ideológicos, mas na sua origem, são consistentes. E os paliativos Securitização, Pesa, Recoop, Pronaf, Procera, entre outros, não resolvem a questão do endividamento, principalmente daqueles que entraram no Plano Real com créditos indexados pela famigerada TR. Esta revolução barulhenta só terminará com a solução definitiva dos problemas de endividamento ou com a "morte" econômica de seus atores.
Por outro lado, há uma revolução silenciosa em andamento, servida pelos agricultores capitalizados, basicamente aqueles que não tinham dívidas no dia em que se implantou o Plano Real. Estes, no firme propósito de sobreviver, lá vão realizando um projeto fantástico, medido por três variáveis. A primeira é a inovação tecnológica, visível, decretada pela adoção das mais modernas máquinas, sejam tratores, colheitadeiras ou equipamentos, dotados de computadores de bordo, GPS e ar condicionado. Os insumos mais recentes são aplicados, assim como técnicas de ponta como o plantio direto e a agricultura de precisão. A segunda, menos visível, e certamente imensurável, é a revolução gerencial. Já não basta mais a melhor tecnologia, se o fazendeiro não for um bom gerente. É preciso ser bem informado para ser um comerciante ágil, para comprar insumos ou vender a produção na hora certa. Gerência financeira é indispensável, seja para tomar crédito com adequado mix de juros, seja para aplicar suas reservas. Saber calcular e pagar impostos já exige preparo, assim como cuidar das questões ligadas a custos de produção e organização do trabalho. Cuidados com a formação de recursos humanos e os contratos de trabalho são prioridades, bem como o adequado tratamento da questão ambiental, hoje fundamental inclusive em termos de comércio exterior. E a terceira vertente da revolução silenciosa é a mudança de modelo: trata-se da necessidade de agregar valor à produção primária. Já não é mais possível fazer renda compatível com os investimentos no campo vendendo grãos, por exemplo. É preciso transformá-los em óleo, farelo, carne ou leite. É preciso industrializar e distribuir tais produtos.
Naturalmente, isto exige uma radical transformação das cooperativas agropecuárias, que serão os principais agentes desta transformação. Também elas precisam profissionalizar-se, reduzir custos e melhorar seus serviços mediante fusões, incorporações, alianças estratégicas e bom marketing. Uma modernização dos contratos de parceria e de integração também serve à causa da agregação de valor. Torna-se essencial a adoção, na prática, do conceito teórico (já assimilado) de cadeia produtiva, de agribusiness. Mas mesmo estes agentes modernos da revolução silenciosa foram vítimas da tríplice colisão (globalidade, estabilização, Estado falido) e estão ameaçados em sua atividade.
Recente estudo dos brilhantes economistas Eliseu Alves, Mauro Lopes e Elisio Contini revela que, mantido o atual estado de coisas em termos da política econômica para o campo, dos atuais 4,9 milhões de produtores rurais restarão, em 15 anos, não mais que 600 mil. O número assusta, principalmente porque o sinal é muito claro quanto à exclusão do pequeno produtor rural. Assim, enquanto a sociedade gasta dinheiro para promover assentamentos, a economia nacional desassenta em muito maior escala, pressionando os centros urbanos por mais infra-estrutura, que também a sociedade tem de pagar.
A situação é tal que leva muitos representantes da classe rural a questionar sobre a validade de sua luta, e, mais ainda, sobre o futuro da agricultura no país, e até no mundo. Afinal, as tecnologias modernas aumentaram espetacularmente a produtividade; a ciência permite a produção de alimentos sintéticos que substituem os que a terra produz; segmentos como a engenharia genética e a hidroponia ocupam espaços crescentes. Chegará o dia em que a terra não precisará ser amanhada para produzir grãos, fibras e biomassa? Não parece possível.
Quem o afirma é Lester Brown, presidente do WorldWatch Institute que, por encomenda do governo japonês, realizou extensa investigação sobre o assunto concluindo que, nos próximos 20 anos, a produção agrícola crescerá menos que a população, elevando o patamar dos preços dos alimentos. Brown lastrea suas conclusões em três variáveis.
A primeira é a escassez de terras aráveis. Segundo ele, o mundo não tem muitas novas fronteiras agrícolas por conquistar, e as existentes ou têm baixa fertilidade ou estão muito longe dos centros de consumo, exigindo pesados investimentos em infra-estrutura. A segunda é a incapacidade de a ciência gerar tecnologias capazes de promover novos saltos espetaculares de produtividade por área. A terceira refere-se à diminuição da água disponível para irrigação, visto que a urbanização em todo o mundo, particularmente nos países asiáticos, exige mais água potável nas cidades para consumo humano.
Embora todos os argumentos de Brown sejam passíveis de discussão, é evidente - e ele mesmo o reconhece - que o Brasil constitui uma exceção: cultiva menos de um terço de sua área agricultável que, sendo em sua maioria cerrado, tem boas perspectivas de incorporar-se à área arada. É certo que nossa fronteira agrícola não dispõe de boa logística, mas as privatizações vão mudando esta realidade, além de termos quase um quinto da água doce do planeta. Assim, enquanto nossos agricultores vivem momentos de tensão que se eternizam desde a década desperdiçada dos 90, têm, aparentemente, um futuro alentador: com espaços amplos para uma poderosa agricultura orgânica, convivendo com a tradicional e até com os transgênicos, desde que absolutamente seguros. Há espaço para tudo neste país continente.
Como atravessar este atoleiro do presente para a glória de dois mil e qualquer coisa? Até o governo federal, há tantos anos dedicado a sucatear os instrumentos de política agrícola, se deu conta, recentemente, de que oagribusiness poderia resolver dois problemas que vão ficando crônicos. O primeiro, o da balança comercial, cujo saldo negativo nos últimos anos só não foi fatal porque os agronegócios foram superavitários, como sempre (gráfico 2). Isto se deve ao desempenho espetacular do setor, apesar de a falta de políticas adequadas (gráficos 3 e 4). O segundo, o da geração de empregos. Está mais do que evidente que nenhum setor da economia gera mais empregos do que o agronegócio por cada milhão de reais investido. E se nesta conta entrarem setores específicos, como o de papel e celulose ou o de têxteis, a liderança dispara (gráfico 5). Com base nesta constatação, o presidente Fernando Henrique Cardoso criou, no segundo semestre de 1996, o Fórum Nacional da Agricultura, uma experiência inédita em que representantes do setor rural, do governo e do parlamento se debruçaram sobre os conhecidos diagnósticos dos problemas rurais e agroindustriais e, durante quase dois anos de dura faina, elaboraram um projeto formidável para o agribusiness, composto de dezenas de programas condensados em um documento chamado "As dez bandeiras do agronegócio". Cada uma delas era composta de diversos programas cujo encaminhamento estava dado.






Este histórico documento - porque contou com a participação desprendida de quase todas as entidades rurais (inclusive trabalhadores, pela Fetaesp) - foi entregue ao governo, com grande solenidade, em 2 de setembro de 1998.
Lamentavelmente, foi solenemente desprezado, talvez pela ignorância agrícola de nossas autoridades econômicas, embora algumas das propostas tenham caminhado em paralelo com os próprios trabalhos do FNA (caso da Lei Kandir, da Lei de Armazenagem e da Lei de Classificação dos Produtos Vegetais). Na prática, seu conteúdo poderia ser resumido em três grandes conjuntos de ações que, se empreendidas, fariam a ponte referida entre presente e futuro.
O primeiro deles é definido pela reforma das políticas públicas, sob uma única referência: conferir igualdade de oportunidades para os produtores brasileiros, quando confrontados com seus colegas de países desenvolvidos. Nada se propõe ou se exige além de isonomia. Para tanto, é absolutamente essencial reformar as políticas macroeconômicas, especialmente a monetária (para atingir juros civilizados), a tributária (desonerar a produção) e a previdenciária, sem o que não se dará o ajuste fiscal, e até a reforma política. Depois virão as setoriais, em que tem peso uma política de renda mínima para o pequeno produtor. O seu êxodo para as cidades é decorrente de não obter renda na atividade. As intermináveis discussões sobre a necessidade de fixar o homem ao campo não consideram este aspecto, como se o agricultor fosse um eterno condenado a ficar fixo na roça, sem renda, porque assim o desejam os acadêmicos urbanóides do Brasil. Muito mais espertos do que parecem, os agricultores buscarão novas alternativas para educar seus filhos e cuidar da saúde de suas famílias se o campo não lhes der esta chance.
O segundo conjunto de ações relaciona-se à organização do setor privado, tanto política quanto econômica. Bolsas, cooperativas e agroindústrias devem participar desta reordenação institucional, sob a égide doagribusiness, promovendo inclusive uma reforma agrária sustentável. E, a partir daí, duas ações são fundamentais: cuidar da imagem do setor, tão vilipendiada pela contra-informação, que a opinião pública acha que o agricultor ou é "barão" ou "jeca", caloteiro ou incompetente, além de explorar menores e trabalhadores e destruir o ambiente. Adicionalmente, é preciso, de forma organizada, preparar o lobby sobre o legislativo e o executivo, buscando a reforma de quase 70 instrumentos legais, desde leis até regulamentos do BACEN, que entravam o desenvolvimento rural.
Finalmente, precisamos de boas negociações na área internacional, visando à conquista de mercados externos. Aqui está um ponto muito delicado. De nada adiantarão políticas públicas isonômicas com relação a nossos concorrentes, nem uma moderna organização privada com todo o marketing que ela possa fazer, se as regras de comércio exterior nos discriminarem. A oportunidade para esta virada é a rodada de negociação, organizada pela OMC, que deverá se estender por, no mínimo, três anos. Trata-se da obrigação assumida pelos países signatários do Acordo Agrícola extraído da Rodada Uruguai do GATT, que estabelece a plataforma básica para as novas negociações, a partir dos temas centrais: acesso a mercados, políticas de apoio interno e estímulos à exportação. Além destes temas, outros virão à tona nas novas negociações, como a cláusula social, a questão ambiental (alimentada pela tese da multifuncionalidade), os transgênicos entre outros. Na mesma onda estão aí as discussões sobre a ALCA e as relações entre Mercosul e União Européia.
O Brasil, que sempre se posicionou mal nestas negociações, seja pela desorganização do setor privado, seja pela desinformação do governo, tem agora uma nova postura. A ABAG, a CNA e a OCB organizaram-se em um Fórum Permanente de Negociações Agrícolas Internacionais, sediado em Brasília, que já definiu a posição brasileira quanto às questões gerais, bem como quanto às especificidades das diversas cadeias produtivas. O setor privado também está se articulando bem com o governo, especialmente com o Ministério da Agricultura e com o Itamaraty, que têm demonstrado boa vontade quanto ao entendimento. Mas é preciso uma sólida coordenação e ação de conjunto, porque a negociação dar-se-á sempre em bloco. Se um setor negociar em separado, poderá prejudicar a si mesmo ou a outros setores não enfocados naquele momento, até porque é visível um recrudescimento das práticas protecionistas, em função de duas circunstâncias: a exclusão social, já referida, que afeta duramente os produtores rurais dos países ricos. Estes, os ligados à OCDE, gastaram em 2000, cerca de US$ 360 bilhões para proteger seus agricultores direta ou indiretamente, o que representa quase US$ 1 bilhão por dia; enquanto isso, o Brasil fica no Pronaf e no Procera. Eliminar os subsídios e a proteção na Europa ou no Japão promoveria a falência de milhares de pequenos produtores, com conseqüências sociais que custariam mais caro que o atual modelo.
Além disto, é também evidente que a riqueza imensa dos países desenvolvidos lhes permite tais práticas protecionistas, significando que não existe apenas uma disputa por mercados entre agricultores de países ricos e pobres. Há, acima disto, uma disputa entre tesouros, o que nos coloca em situação bastante desvantajosa frente a norte-americanos, europeus e alguns asiáticos. Assim, é importantíssimo que nos organizemos ao máximo para evitar mais uma derrocada na OMC. Esta seria uma pá de cal na nossa já combalida economia rural.
Finalmente, cabe uma observação quanto a um ponto crucial: os efeitos da concentração sobre as cadeias produtivas no Brasil. Impulsionados pela competitividade, cresce o número de fusões no setor do agribusiness. Já é pequeno o número de fabricantes de tratores, devendo cair ainda mais. Também se reduz o número de produtores de sementes, defensivos e fertilizantes. Suas margens diminuíram e, premidos pelo ajuste cambial de janeiro de 1999, elevaram seus preços, sem que os produtos agrícolas acompanhassem estes aumentos. Na outra ponta, juntaram-se as indústrias de alimentos, de laticínios e esmagadores, assim como as empresas de distribuição e abastecimento. Pressionada pelos dois lados, a margem dos produtores vai também se reduzindo. Já se falou sobre isto, apontando-se o caminho da agregação de valor como a solução evidente.
Mas, fica nesta questão uma grande interrogação: qual será o grau de capacidade do Brasil de se livrar da dependência tecnológica? A concentração antes da porteira, somada ao diferencial de investimentos em tecnologia entre os países ricos e o nosso, está sinalizando um risco enorme de dependência.
Um dado esclarecedor a respeito é o volume de recursos destinados ao desenvolvimento tecnológico no Brasil e nos Estados Unidos. De acordo com o Ministério do Planejamento, em 1997, no Brasil, foram investidos em P&D 1,15% do PIB, equivalente a US$ 8,76 bilhões, enquanto nos EUA, o valor foi bem maior, atingindo cerca de 2,5%, correspondendo a US$ 125 bilhões.
Eis aí um assunto que deve preocupar sobremaneira a Nação. Uma sociedade que não gera sua tecnologia, especialmente a agrícola, sendo a nossa tropical, bem diferente da dos países do hemisfério Norte, poderá ter futuro?
A tecnologia é a alavanca da competitividade. E aqui já se viu que os agricultores brasileiros souberam incorporar tecnologia, aumentar competitividade e abastecer a população do país, mesmo com sua renda caindo. Até quando será possível sustentar tal situação? Recentes estudos comandados pela Embrapa mostraram o impacto dos avanços tecnológicos no campo: um pedreiro da cidade de São Paulo teve uma redução anual de 5,25% com seus gastos em alimentação nos últimos 25 anos! Até quando a concentração no agronegócio de países ricos estará excluindo nossos produtores?
Afinal de contas, nosso potencial produtivo é fantástico, como pode ser observado no quadro 1.
Mas, na verdade, o desempenho das nossas exportações não tem sido tão espetacular quanto poderia, exatamente por falta dos três conjuntos de ações referidos.


Conclusão
Como, então, a tecnologia agrícola pode contribuir para uma agricultura sustentada, para um Projeto Brasil que nos leve para o Primeiro Mundo?
Até porque, pelo menos por enquanto, este é o veículo que temos, os agronegócios: falta algum tempo para vencermos também em outros setores nos quais é preciso investir mais em tecnologia. Embora o universo de trabalho a enfrentar nesta direção seja imenso, embora esteja tudo por fazer, é preciso definir prioridades para um projeto ser viável. Tentar abraçar todo o infinito levará à frustração e ao fracasso.
É essencial estabelecer a referência básica: uma agricultura sustentável é aquela inserida no mercado mundial de forma competitiva, com qualidade e preços, garantindo renda - e portanto estabilidade - aos agricultores, sob a ótica das cadeias produtivas, preservando os recursos naturais e cumprindo a função social da terra.
* * *
Sob tal conceito, talvez devessem ser estabelecidas três grandes prioridades:
  • uma política interna que garanta renda aos agentes das cadeias produtivas;
  • uma política externa que abra os mercados aos produtos brasileiros;
  • uma política de formação de recursos humanos para o agronegócio brasileiro.
Para encaminhar as discussões sobre estes três assuntos, poderiam ser apresentadas algumas idéias gerais.

Idéias para uma política de renda
  • Criação do Seguro Agrícola. É preciso privatizar o IRB.
  • Criação do Programa Nacional da Correção e Conservação do Solo e Uso do Solo e da Água, com financiamentos de longo prazo.
  • Juros para o crédito rural compatíveis com os praticados no mercado internacional.
  • Criação de instrumentos que garantam renda mínima ao pequeno produtor rural, com reconversão de atividades.
  • Estímulo às bolsas de futuro via desoneração sobre o investidor estrangeiro e financiamento das margens através do crédito rural.
  • Implantação de mecanismos de informações sobre estatísticas de mercado agrícola: estoques, localização, qualidade, custos etc.
  • Isenção ou redução de tributos sobre a cesta básica e sobre os insumos agrícolas, máquinas e equipamentos.
  • Eliminação de impostos em cascata (PIS, Cofins etc.) via comercialização interna e externa de produtos agrícolas, bem como eliminação do IOF em Bolsas para operações de mercado agrícola.
  • Eliminação do ITR sobre áreas de preservação ambiental e florestas.
  • Instituição da cobrança do ICMS (enquanto existir), no destino.
  • Criação de um instrumento legal para ações de C&T na linha dos "Institutos de Pesquisa", apoiado pelo Projeto de Lei n.º 2950, de 1997, que: - concilie a estabilidade política-institucional da pesquisa pública com a necessária flexibilidade administrativo gerencial; - utilize mecanismos que estimulem a competitividade, eficiência e avaliação de resultado; - incentive a parceria dos setores público e privado.
  • Criação de mecanismos e aperfeiçoamento dos existentes, de modo a: - aumentar seletivamente as dotações para a pesquisa, principalmente através de fundos; - aumentar a participação do setor privado através de fundos de caráter privado e incentivos governamentais; - simplificar a legislação de incentivos (Lei 8.661) e facilitar o acesso do setor privado aos recursos oficiais da Finep, CNPq, BNDES.
  • Restruturação dos serviços estaduais de assistência técnica e extensão rural, com a participação do governo federal e da iniciativa privada, para apoiar prioritariamente pequenos produtores, em regime de agricultura familiar, sob a ótica do desenvolvimento rural sustentável, bem como a implementação de programas de capacitação com o uso intensivo dos instrumentos modernos da tecnologia da informação.
  • Criação de um programa nacional de incentivo ao manejo integrado de pragas, doenças e plantas invasoras (MIP), com a realização de pesquisas e treinamento para agricultores e extensionistas.
  • Criação de mecanismos que incentivem o crescimento da agricultura orgânica, com certificação e rastreabilidade.
  • Criação de mecanismos que permitam a utilização do condomínio e de áreas comuns, entre produtores, para o cumprimento de exigências legais.
  • Privilégios para a execução de políticas públicas para a agricultura familiar por meio de cooperativas ou associações, implementando inclusive subvenções de caráter econômico-social.
  • Estímulo a um maior relacionamento e integração dos agricultores organizados com as agroindústrias, incentivando projetos de beneficiamento e/ou transformação de produtos por parte de grupos de pequenos produtores (agricultura familiar).
  • Dotação às comunidades de infra-estrutura sócio-econômica, que facilitem a execução de projetos de investimentos produtivos, geração de renda e emprego, com a participação do poder público e de organizações privadas, constituídas por grupos de pequenos produtores.
  • Firme garantia do Poder Executivo quanto ao direito constitucional à propriedade privada, reprimindo os abusos contra a lei, como invasões a propriedades.
  • Fortalecimento e ampliação do alcance do Banco da Terra, com a alocação de recursos orçamentários para aquisição de terras por arrendatários, jovens agricultores, assalariados rurais e pequenos agricultores, inclusive por intermédio de associações e cooperativas.
  • Incentivo à implantação de projetos privados de assentamento, por cooperativas ou empresas colonizadoras, visando reduzir a tensão no meio rural.
  • Criação de mecanismos legais e de ampliação de crédito fundiário, para que proprietários de terras ociosas se incorporem em programa de loteamentos de glebas rurais, a serem disponibilizadas para agricultores sem terra.

Idéias para uma política de comércio exterior
  • Criação do Comitê Permanente de Negociações Internacionais, composto por representantes de governo, setor privado, academia e parlamento, presidido pelo ministro da Agricultura, com o fim de assessorar o Itamaraty em negociações internacionais, no âmbito dos agronegócios, na OMC, na ALCA, no Mercosul, entre outros organismos das relações comerciais.
  • Formação de negociadores para os agronegócios, que constituirão futuros adidos agrícolas em embaixadas selecionadas.
  • Regulamentação e implementação de legislação que permita a aplicação de capital de risco para o financiamento de empresas de base tecnológica.
  • Reorientação institucional da Secretaria de Defesa Agropecuária e das secretarias estaduais e municipais de Agricultura, com a organização e montagem de uma autarquia que tenha personalidade jurídica, autonomia administrativa e financeira, permitindo parcerias com a iniciativa privada.
  • Implantação de um programa de qualidade e sanidade, centrado nas cadeias produtivas do agronegócio e engajamento das instituições públicas e privadas de pesquisa na descrição e certificação de conformidade de processos produtivos e criação de centros de referência de qualidade.
  • Estímulo à criação de instituições nacionais que organizem a rastreabilidade e certificação de produtos agrícolas e dos agronegócios.
  • Incentivo ao manejo sustentado de recursos naturais e seu monitoramento, desburocratizando as atividades, eliminando exigências excessivas de licenças, estabelecendo sistemas padrão simplificado, mediante legislação adequada.
  • Desenvolvimento de estratégias nacionais, programas e planos para ampliar a base genética das principais culturas e conservação de microorganismos de interesse para a agricultura, estimulando a criação e o manejo de parques nacionais com vistas à preservação da biodiversidade.
  • Incentivos à difusão de sistemas alternativos de produção, tais como a agricultura orgânica, biológica, polinização dirigida e outros, e de tecnologias preservacionistas como plantio direto, uso racional dos recursos hídricos, rotação de culturas, conservação do solo etc.
  • Revisão da legislação trabalhista rural, visando à sua modernização e adequação à nova realidade no país, melhorando as relações laboral e patronal, propiciando assim a elevação no nível de emprego.
  • Ampliação de sistemas intermodais de transportes, especialmente a hidrovia e a ferrovia visando a baratear o custo do frete de produtos e insumos.
  • Criação da Agência de Desenvolvimento do Agronegócio.
Nas negociações, seja na ALCA ou na OMC, seja nas relações entre a UE e o Mercosul, uma posição deve estar clara: o Brasil tem um mercado consumidor que é a grande atração para todo os países desenvolvidos. Este é o nosso cacife e precisamos usá-lo bem no difícil jogo dos mercados. É um cacife de valor, e nossa posição negocial deve ser nele calcada.
Por outro lado, se os países desenvolvidos mencionam a proteção de seus produtores por questões sociais, devemos usar o mesmo discurso, porque sabemos que a falta de renda no campo causa exclusão social: temos o exemplo disto aqui mesmo.
Assim, o discurso é claro: a agricultura é multifuncional na Europa, mas é também aqui. Vamos usar os argumentos dos ricos para vencê-los.
Podem proteger o quanto quiserem, desde que isto não represente a formação de excedentes exportáveis para terceiros países, onde não podemos concorrer. O argumento é sólido, porque desmascara quem estiver usando o discurso social com outros objetivos e se enquadra na chamada Caixa Verde dos Acessos a Mercados.
Finalmente, é fundamental uma boa articulação entre setor público, setor privado e academia na formulação e sustentação da nossa política comercial. A criação de um Comitê de Negociações Agrícolas Internacionais com tal composição, presidida pelo ministro da Agricultura e com um braço no Congresso Nacional seria um excelente instrumento. Acabaria com a "Solidão do Negociador" e daria agilidade às posições brasileiras.

Idéias para uma política de RH para o agronegócio
Os profissionais de ciências agrárias, em especial o agrônomo, têm condições de atuar em todos os pontos aqui referidos, começando em todos os níveis da área tecnológica.
Nos itens referentes à revolução silenciosa, principalmente, têm um papel relevante, e também na organização dos produtores, seja em cooperativas ou associações, seja em alianças estratégicas.
E, não apenas nesses aspectos, mas nas idéias sobre política de renda e de negociação internacional, o agrônomo tem tudo a ver: na solução do endividamento, na revisão fundiária, na questão ambiental, no seguro rural, no crédito, enfim, não há tema no qual ele não deva estar, com papel de destaque. Também no marketing e na agregação de valor.
É para isto que nossas Universidades devem olhar. Não basta a tecnologia, embora sem ela todo o resto seja inútil.
O agrônomo precisa ser um cidadão integrado à realidade do seu país, comprometido com sua história e com sua geoeconomia. A agricultura não é um setor à margem da economia, mas a verdadeira base dos outros setores. E o engenheiro agrônomo é o agente deste processo; é ele o motor que faz girar a roda da economia, cujo eixo é o agricultor, pequeno, médio ou grande.
Se nos decidirmos pelas mudanças necessárias, então, não haverá dúvida. Os profissionais do setor serão reconhecidos como o motor referido e o Brasil, finalmente, com uma agricultura verticalizada, sustentável e competitiva, levará este país à Constelação dos Países Desenvolvidos, justos, democráticos. Daremos Paz a esta Nação, pela qual vale a pena viver. Pelo qual vale a pena morrer.


Roberto Rodrigues, engenheiro agrônomo e agricultor, é presidente da Aliança Cooperativa Internacional e da Associação Brasileira de Agribusiness e professor de Economia Rural na Unesp-Jaboticabal.
 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A AGRICULTURA DE PRECISÃO Nova tecnologia permite conhecer cada metro quadrado da lavoura


Com a globalização da economia e a competitividade de preço dos produtos agrícolas, surgiu a necessidade de se obter níveis de competitividade internacionais. Além disto, a busca pela conservação dos recursos naturais, impõe à atividade agrícola novos métodos e técnicas de produção, aliados à eficiência e maior controle dos resultados obtidos no campo, em relação ao que se pratica hoje. Além disso, a agricultura moderna está relacionada ao plantio de extensas áreas de monocultura, e um dos principais problemas que reflete diretamente na produtividade agrícola de extensas áreas é a distribuição inadequada de calcário, semente, adubo, herbicida e inseticida no terreno. Este fato tem acarretado zonas de baixa produção de grãos e cereais dentro da área cultivada. 
Como uma resposta para minimizar estes problemas e com o avanço da tecnologia, foi possível que satélites, computadores e sensores auxiliassem a agricultura.  Surgiu, então um novo sistema de produção que, há alguns anos já é utilizada pelos agricultores de países de tecnologia avançada, chamado de Precision Agriculture, Precision Farming, e no Brasil de Agricultura de Precisão. Este sistema vem resgatar a capacidade de conhecer cada metro quadrado da lavoura, que foi perdido à medida que as áreas cultivadas foram crescendo.
Conceitos sobre Agricultura de Precisão
A AP é uma tecnologia que utiliza em conjunto sinais de satélite e softwares para interpretação de dados geoprocessados, isto é, recolhe e reuni informações da área cultivada, sempre com a localização precisa.
O uso racional dessas tecnologias, utilizadas como ferramentas de acompanhamento, controle e análise, permitem  verificar as variações espaciais e temporais dos fatores limitantes à produção, orientando no processo de tomada de decisão na aplicação localizada de insumos e no manejo diferenciado das culturas no campo de produção. Assim, pode-se determinar "qual, quando e onde" o insumo deve ser aplicado e "como" fazê-lo,  permitindo identificar locais específicos com diferentes potenciais de produtividade, podendo-se determinar ou não, desde que econômica e tecnicamente viáveis, investimentos em insumos ou na correção de fatores limitantes à produção, visando a maximização da produtividade e minimização dos impactos ambientais. O principal conceito é aplicar no local correto, no momento adequado, as quantidades de insumos necessários à produção agrícola, para áreas cada vez menores e mais homogêneas, tanto quanto a tecnologia e os custos envolvidos permitirem.
Entre algumas vantagens do sistema, estão:
- uso racional de insumos agrícolas;
- minimização dos impactos ambientais;
- maximização da qualidade, produtividade e do retorno financeiro.
Como vimos, os objetivos da AP são principalmente a diminuição de custos de produção, aumento da produtividade e diminuição de impacto ambiental. Isso só é possível porque qualquer operação é sempre localizada e nas proporções necessárias.
O processo
As etapas básicas do sistema de agricultura de precisão são: a coleta de dados, o planejamento do gerenciamento, e a aplicação localizada dos insumos.
Na primeira etapa o objetivo é identificar a variabilidade existente em campo dos diversos fatores de produção (solo, pragas, ervas daninhas, etc.) e da própria produção da cultura. Para isso,  primeiramente deve ser feito o mapa de produtividade na colheita. Isto é feito com equipamentos instalados nas colheitadeiras, que marcam cada posição geográfica no campo através de sinais de satélite recebidos com o GPS. Além disso informam, através de sensores de rendimento e umidade, a quantidade e condições físicas dos grãos colhidos em cada trecho percorrido.
As informações recebidas são processadas por programas de computador, que fazem os mapas com a quantidade produzida em cada trecho colhido. Os mapas de produtividade permitem individualizar a produção da lavoura. Exemplo.: uma lavoura de produção média é de 100 sc/ha poderá ter áreas que produzem 60 e outras 130 sc/ha. Com os mapas, estas áreas podem ser visualizadas.
No exemplo abaixo, você pode ver dois modelos de mapas de produtividade. As legendas de cores diferentes indicam as diferenças de produtividade da lavoura.
A segunda etapa consiste em se processar esses dados (dos mapas de produtividade da colheita) para avaliar e quantificar a variabilidade medida, tentar relacionar a variabilidade da produção com a dos fatores de produção, propor estratégias de gerenciamento agrícola que levem em conta esse cenário de variabilidade, consolidados na forma de mapas de aplicação dos insumos. 
Após as analises das amostras do solo coletado, das plantas daninhas o agricultor terá mapas que traduzem a fertilidade da área, a ocupação das plantas daninhas e muitos outros mapas como, umidade, pH, estrutura e drenagem do solo, densidade de plantas e estagio de crescimento e área em metros quadrados e não em hectares como vem sendo feito até agora.
O mapa de produtividade é interpretado para obter o diagnóstico correto ( concentração de nutrientes, umidade, ocorrência de doenças, etc...) da situação de cada parte da lavoura (essa análise exige conhecimentos de agronomia).
Também é necessários fazer o mapa de fertilidade do solo, conseguido através da coleta (registrada por GPS) e análise de uma ou mais amostras do solo. Este mapa indica o teor da cada nutriente no solo em cada ponto da área cultivada, permitindo identificar onde existe ausência ou excesso de nutrientes necessários ao desenvolvimento das plantas.
Depois da análise e interpretação dos mapas de produtividade e fertilidade, além de outras informações, confecciona-se os mapas para aplicação localizada dos insumos. Estes mapas indicam qual insumo, quantidade, e posição exata para aplicação. A grande vantagem é que ao invés de calcular, por uma média, o quanto a área a ser cultivada necessita de sementes, calcário, adubo, herbicida e inseticida, o agricultor vai poder aplicar apenas a quantidade necessária para cada diferente zona do terreno.
Todos estes dados são armazenados num cartão magnético, que será lido por computadores instalados nos tratores e máquinas de aplicação localizada. 
Na terceira etapa serão utilizadas máquinas agrícolas com a capacidade aplicar os insumos em taxa variável ao longo do talhão, de forma automática, e levando em conta a sua posição no campo. Estas máquinas contam com controladores de aplicação inteligentes conectados ao GPS, que seguem as instruções estabelecidas nos mapas confeccionados com a recomendação da aplicação detalhada para cada ponto do terreno gerados na etapa anterior, e e informa à semeadora ou adubadora a quantidade e momento exato em que ela deve despejar os insumos no solo. Por exemplo no caso da semeadora quanto mais fértil for aquele trecho do terreno, menos sementes serão lançadas e vice-versa. Diversas máquinas com essa capacidade já estão disponíveis no mercado e estão em franca evolução tecnológica.Os insumos aplicados podem ser sementes, pesticidas, fertilizantes, corretivos, defensivos e outros.
Resumindo o processo, um ciclo completo pode ser descrito assim:
1ª - colheita feita com máquina equipada com sensores e receptor GPS para localização;
2ª - análise e confecção do mapa de produtividade;
3ª - análise de solo e outros fatores em busca das causas da variação de produtividade;
4ª -  geração do mapa de aplicação localizada de acordo com o resultado das análises e aplicação de fertilizantes e micronutrientes em taxas variáveis;
5ª - plantio em taxas variáveis conforme o potencial produtivo de cada região analisada em cada parte da área, conforme o mapa de aplicação;
6ª - mapeamento de invasoras, doenças, insetos, etc da lavoura;
7ª - aplicação localizada a taxas variáveis de produtos químicos, conforme a intensidade de invasoras, insetos e doenças em cada ponto da lavoura;
8ª - nova colheita iniciando um novo ciclo da AP.
A cada novo ciclo, haverá mais informações sobre a lavoura, o que se tornará as análises cada vez mais confiáveis, gerando um histórico da lavoura.

  
GPS - Global Positioning System é um sistema que conta com 24 satélites, sendo 3 reservas. Estes satélites denominados NAVISTAR  estão distribuídos em 6 órbitas distintas, a uma altitude aproximada de 20 mil km. Com esta configuração em qualquer ponto da superfície da Terra há no mínimo 4 satélites acima da linha do horizonte 24 horas por dia. Foi projetado para fornecer o posicionamento instantâneo bem como a velocidade de um ponto sobre a superfície da Terra ou próximo à ela. Este sistema foi desenvolvido pelo Departamento de Defesa dos EUA, originalmente criado com fins militares estratégicos. A partir de meados da década de setenta o seu uso foi estendido para aplicações civis, tendo passado por uma contínua evolução desde então, principalmente no que diz respeito aos equipamentos eletrônicos e programas computacionais. Representa atualmente uma nova alternativa de posicionamento para a Cartografia e ciências afins, tendo o uso do GPS crescido significativamente em aplicações nas atividades agrícolas e florestais.
 Com esta triangulação a partir de satélites, o sistema determina a distância entre um receptor (antena) e o satélite, através do tempo que um sinal de rádio leva, a partir de sua saída do satélite, para chegar ao receptor, o que é feito através de uma correlação dos códigos gerado e recebido, onde através da geração simultânea e sincronizada de sinais idênticos pelo satélite e pelo receptor, se determina a defasagem entre os sinais e assim determina-se a diferença de tempo em que o sinal demorou para percorrer a distância receptor-satélite.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Embrapa cria mistura de café com soja


         Além do sabor, a bebida mista contém compostos bioativos que proporcionam benefícios à saúde

  Shutterstock
Estudos recentes têm demonstrado os benefícios do café à saúde

A Embrapa Agroindústria de Alimentos testou 18 formulações até chegar a uma bebida saborosa e nutritiva feita a partir de café solúvel, extrato de soja e açúcar. Basta tirar do saquinho e adicionar água quente ou fria. O consumo de produtos à base de soja tem sido relacionado à redução no risco de várias doenças crônicas e estudos recentes têm demonstrado os efeitos benéficos à saúdeatribuídos ao consumo moderado de café. Além do sabor, a bebida mista contém compostos bioativos como as isoflavonas da soja, que vêm sendo relacionadas à benefícios em relação a diversas doenças, tais como alguns tipos de câncer, osteoporose e sintomas da menopausa, bem como os ácidos clorogênicos do café, que também têm sido relacionados ao bem-estar, principalmente pela sua capacidade antioxidante.         

Pela primeira vez, Centro-Oeste supera o Sul em valor da produção


Secas provocaram queda de 20,3 % no VBP da Região Sul. Valor total do índice está estimado em R$ 211,24 bilhões

Ernesto de Souza
Soja teve redução de 12,9% no valor em 2012
Valor Bruto da Produção (VBP), soma do valor das principais lavouras do país, está estimado em R$ 211,24 bilhões em 2012, segundo cálculo da Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgados nesta terça-feira, (15/5). Os dados são obtidos com base nos resultados verificados no mês de abril. A seca ocorrida principalmente no Rio Grande do Sul e no Paraná entre o fim do ano passado e o começo de 2012 provocou perdas em diversas lavouras e fez o índice da região cair 20,3%, sendo superado pelo Centro-Oeste pela primeira vez.
O total de R$211,24 bilhões chama a atenção do governo por estar abaixo do valor obtido no ano passado, R$ 216,26. Mesmo assim, é o segundo maior valor desde que foi iniciada a série histórica do VBP, em 1997. Os ajustes nas quantidades e nos preços mês a mês vão definindo a estimativa de valor para o ano em curso, uma vez que o valor bruto da produção é obtido através das informações de safras e dos preços, explicou o coordenador de Planejamento Estratégico do MapaJosé Garcia Gasques

Os maiores destaques quanto ao aumento do VBP foram verificados no algodão, cuja elevação foi de 30,4%, cana-de-açúcar, 9,5 %, feijão, 4%, e milho, 16,4 %. “Esses resultados vem ocorrendo principalmente pelo aumento dos preços desses produtos”, justificou Gasques. Os produtos com pior desempenho neste ano, no entanto, foram a batata-inglesa, com redução no valor de 40,5 %; o fumo, 52,2 %; a cebola, que teve uma redução de 9,3 %; o cacau, 10,9 %; alaranja, 14,3 %; a soja, 12,9 % e o tomate, 4,7%, entre outros. 

As reduções no VBP desses produtos se devem especialmente por conta dos menores preços registrados no período. Na soja em especial, a redução de 12,9% no valor em 2012, atribuída aos problemas da seca no Sul no final do ano passado e no início deste ano e que agora assola o Nordeste. O fator meteorológico tem provocado perdas em diversa lavouras. As informações de safra referentes ao mês de abril mostram quedas de produção de feijão e milho no Nordeste. 

Segundo Gasques, esse desempenho afeta os resultados obtidos com a venda da safra nas regiões que registraram irregularidades climáticas mais acentuadas. A queda do valor da produção de 20,3 % no Sul devido a esses resultados desfavoráveis, faz com que o ano de 2012 seja o primeiro onde o valor da produção do Centro-Oeste supera o valor daRegião Sul.

segunda-feira, 14 de maio de 2012


"Profissional que estuda a cultura dos campos e teoria da agricultura"
Fonte: Dicionário Michaelis

O que é ser agrônomo?

Engenheiros agrônomos ou agrônomos como são conhecidos, são profissionais responsáveis por conceber e orientar a execução de trabalhos relacionados à produção agropecuária. Pesquisam e aplicam conhecimentos científicos e técnicos à agricultura, para garantir uma produção vegetal e animal racional, e lucrativa. Acompanham todo o processo de produção de alimentos de origem vegetal e animal, visando a menor custo de produção, melhor qualidade e incremento da produtividade, além da manutenção e conservação do meio ambiente.

Quais as características necessárias para ser um agrônomo?

Para essa profissão, é importante que a pessoa goste de lidar com animais e com a natureza. Tenha gosto por atividades ao ar livre. Perceba facilmente diferenças e detalhes de certas paisagens, como rochas e formações geológicas. Tenha interesse em trabalhar com plantações ou criação de animais. Sentir-se atraído pelo mundo rural. Pense em se dedicar a alguma profissão relacionada à agricultura, à exploração de recursos florestais, à pecuária, à pesca ou à silvicultura. Tenha disposição para trabalhar no campo, na natureza ou a céu aberto.

Características desejáveis:

  • atenção a detalhes
  • capacidade de adaptação a novas situações
  • capacidade de comunicação
  • capacidade de concentração
  • capacidade de decisão
  • capacidade de organização
  • capacidade de resolver problemas práticos
  • criatividade
  • curiosidade
  • facilidade para matemática
  • flexibilidade
  • gosto pela pesquisa e pelos estudos
  • gosto por atividades ao ar livre e pelo contato com a natureza
  • habilidade para trabalhar em equipe
  • interesse em construir coisas
  • interesse pelas ciências
  • interesse pelo funcionamento das coisas
  • interesse por novas técnicas e tecnologias
  • raciocínio abstrato desenvolvido
  • raciocínio espacial desenvolvido
  • senso prático

Qual a formação necessária para ser um agrônomo?

Para exercer a profissão de agrônomo ou engenheiro agrônomo é necessário o diploma de graduação em agronomia, e obter registro no CREA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia). O domínio do inglês e de computação são exigências comuns. Além da formação técnica de qualidade, as empresas cada vez mais demandam conhecimentos na área gerencial e valorizam conhecimentos gerais. Engenheiros devem estar sempre bem informados sobre novas tecnologias em sua área de especialização, que avançam muito rapidamente, através de constante leitura de revistas e livros especializados.

Principais atividades de um agrônomo

O agrônomo faz parte de todas as etapas da produção e comercialização dos produtos, acompanhando desde o plantio até o armazenamento e distribuição da mercadoria ou, no caso de animais, do controle de doenças, reprodução e abate.
O agrônomo planeja, auxilia e executa os serviços ligados a escolha da cultura, preparação do solo, do plantio, da adubação e da colheita.
Já na agropecuária, cuida da criação, alimento, saúde, reprodução e abate de rebanhos, bem como no combate a pragas e doenças que atacam plantações e animais.
Acompanha ainda, o transporte, o beneficiamento, a industrialização e a venda dos produtos.
Além disso, esse profissional também deve:
  • planejar e executar obras e serviços técnicos de engenharia rural, incluindo construções para fins rurais, visando a aumentar a funcionalidade das instalações e irrigação e drenagem para fins agrícolas;
  • pesquisar e implantar novas tecnologias no setor agroindustrial, incluindo beneficiamento e conservação de produtos e seu aproveitamento industrial, aproveitamento de recursos naturais e do meio ambiente, defesa e vigilância sanitária, projetos de mecânica, adubação, irrigação, colheita; 
  • fiscalizar a indústria e o comércio de adubos e agrotóxicos, desenvolvendo assim projetos de .
  • cuidar da padronização e do controle de qualidade dos produtos finais.

Áreas de atuação e especialidades

  • Defesa sanitária: Prevenção de doenças da lavoura e combate às pragas;
  • Engenharia rural: Supervisão da construção de instalações rurais, como nivelamento do solo, sistemas de irrigação e drenagem;
  • Fitotecnia: controla o uso de sementes, adubos e agrotóxicos. Prevenção de doenças e pragas;
  • Agribusiness: pesquisar e orientar o uso de fertilizantes, agrotóxicos e rações. Acompanhar a safra desde o plantio até a venda;
  • Agroecologia: pesquisar meios de conservar e aumentar a fertilidade dos solos, zelar pela utilização racional da terra, água, flora e fauna;
  • Zootecnia: cuida da saúde, alimentação, reprodução e adaptação ao meio do rebanho.
Especializações: Agrotecnia, silvicultura, agrometeorologia, economia agrícola, solos, engenharia rural, entomologia, fitotecnia, parques e jardins, zootecnia, melhoramento animal e vegetal, recursos naturais e ecologia, reflorestamento, tecnologia de transformação, topografia.

Mercado de trabalho

É inevitável a necessidade de modernização dos diferentes setores da produção rural brasileira. Num País como o Brasil, de enormes regiões cultiváveis, há muito para ser pesquisado e desenvolvido no setor, o que valoriza o trabalho do Engenheiro Agrônomo.
Por outro lado, o mercado de trabalho esse profissional não tem recebido muitos investimentos por enquanto. O governo federal vem fazendo cortes significativos nos investimentos e os quadros de funcionários praticamente não vêm sendo renovados. Os efeitos no mercado de trabalho são fortes, pois o setor público - órgãos públicos ligados à agropecuária, secretarias de agricultura e administrações regionais responsáveis por parques, hortos, praças e jardins - tradicionalmente absorve boa parte dos profissionais em atividade no país. Por isso há grande evasão de estudantes das carreiras relacionadas às ciências agrícolas. No entanto, os problemas de degradação do meio ambiente e exaustão dos recursos naturais vão exigir cada vez mais a participação dos profissionais de agronomia, que encontram aí uma perspectiva de atuação junto às instituições públicas e à iniciativa privada. As melhores oportunidades estão no Rio Grande do Sul, no Paraná e em Santa Catarina, caracterizados por grande potencial agrícola nas mãos de pequenos e médios produtores, e no Mato Grosso do Sul, que concentra a maior parte dos grandes empresários rurais e agrícolas. Indústrias processadoras de alimentos e produtoras de adubos, rações, fertilizantes, inseticidas, produtos agrícolas, matadouros, frigoríficos, bancos de crédito agrícola, cooperativas, grandes fazendas e colônias agrícolas, instituições de pesquisa e de ensino também oferecem vagas.

Curiosidades

AGRONOMIA DO FUTURO

Xico Graziano
O nascimento do ensino agrícola no Brasil remonta ao final do regime escravista. Em 1871, com a Lei do Ventre Livre, a educação dos libertos passava a ser obrigação do Estado. Ao completarem 8 anos, os filhos das escravas poderiam ser encaminhados às instituições públicas, para serem instruídos. Nesse caso, seus proprietários receberiam uma indenização de "seiscentos mil-réis". A idéia não funcionou bem, mas significou uma mudança nos valores da sociedade escravocrata.
Quem explica são Mary del Priori e Renato Venâncio, autores de recente, e ótimo, livro sobre a história da vida rural no país. Na década de 1850, o governo imperial programa uma série de medidas modernizadoras da sociedade. Na agenda educacional, proposta pela família real desde a sua chegada ao Brasil, o ensino rural se destacava. Mas demorou a sair do papel.
Abolida a escravidão e proclamada a República, aí, sim, ganham fôlego as novas idéias. Em 1901, começa a funcionar a Esalq/USP, espécie de Meca da agronomia nacional, situada em Piracicaba (SP). Antes dela, Pelotas, no Rio Grande do Sul, e Cruz das Almas, na Bahia, já iniciavam seus cursos de Agronomia. Em 1908 surge o curso de Lavras (MG); em 1910, no Rio de Janeiro; em 1918 no Ceará; em 1920, o de Viçosa (MG).
O primeiro grande dilema enfrentado pela nova profissão residia na diversificação da agricultura. Naquele período, o combate à monocultura do café polarizava as discussões. Na verdade, havia um componente político, capitaneado pelos cariocas, em face do predomínio da economia agrária paulista.
A grande crise de 1929-1930 resolveu, por linhas tortas, a pendenga. A oligarquia cafeeira se arrebentou, disponibilizando terra e recursos para alternativas de produção, como o algodão. As cidades iniciam sua forte expansão populacional, demandando alimentos. Décadas de progresso se verificam entre 1940 e 1970.
Forma-se a rede oficial de assistência técnica e extensão rural, as Emateres, espalhadas nos Estados. Em São Paulo surgem as "Casas da Lavoura". O agrônomo Fernando Costa, ministro da Agricultura, impulsiona a pesquisa agronômica e a mecanização agrícola. A agronomia vive anos de ouro. Surgem os grandes manuais da profissão.
Depois, com a industrialização, já nos anos 1970, chega momento diverso. O avanço da tecnologia exigia a especialização. Os cursos perdem seu ecletismo. Pulveriza-se a profissão, surgem novos ramos: zootecnia, tecnologia de alimentos, engenharia florestal. O mercado demanda mão-de-obra singular.
A função social do agrônomo, como promotor do desenvolvimento, cede lugar na expansão do capitalismo agrário. Empresas privadas invadem o setor educacional, rebaixando o nível de ensino. O problema estava na formação prática dos alunos: sem laboratórios adequados nem áreas experimentais, formam-se profissionais capengas.
Virou o século, tudo é passado. Hoje, existem 137 Faculdades de Agronomia pelo País afora, lançando cerca de 3.850 novos profissionais por ano no mercado de trabalho. Um verdadeiro exército de mão-de-obra qualificada no meio rural. Qual bagagem leva para a trincheira?
Thomas Kuhn, em sua famosa teoria das revoluções científicas, assinala o papel conservador dos manuais. Especialmente nas ciências naturais, os grandes livros organizam o conhecimento passado, mas nada apontam para a frente. Quando a ciência evoluía devagar, o prejuízo era pequeno. Todavia, com a chegada, nos anos 1970, da "revolução verde", velhos conceitos e práticas de agricultura foram rapidamente superados.
Na seqüência, a informática, a engenharia genética e a biotecnologia explodem a fronteira do conhecimento. O desafio do ensino universitário consiste em acompanhar a velocidade do progresso científico. Os manuais rapidamente se fossilizam.
Nesse embaraço mora o grande perigo da agronomia. É cabível perguntar: as Faculdades de Ciências Agrárias estão preparando bem os alunos para os novos tempos? Ou eles se formam estudando velhos manuais, desconectados da realidade?
Nem tanto ao céu nem tanto ao mar. Em qualquer profissão se discute semelhante dilema, entre treinar gente conectada ao mercado ou preparar profissionais visionários. Empregados ou empreendedores? Ambos?
A superação desse dilema pressupõe compreender que o novo paradigma da agropecuária não mais se centra na tecnologia. Produzir, francamente, está ficando tarefa fácil, guardadas as devidas proporções. Difícil, mesmo, é garantir renda ao produtor rural. O mercado, seletivo e rigoroso, massacra o agricultor. Mesmo com tanta tecnologia, está difícil pagar o custo da produção.
Na mitologia romana, Ceres é a deusa das plantas. Simboliza a fertilidade do campo. Se quiser continuar a venerá-la, a agronomia precisa dourá-la com as tintas do marketing rural. Aqui está a novidade, melhor dizendo, o passaporte para o futuro. Mais que saber plantar ou criar, os agricultores devem gerenciar seu negócio de forma empreendedora, competitiva. E a chave está na certificação da produção, no aprendizado das boas práticas agrícolas, na agricultura . Essa agenda, concomitante com a inovação tecnológica, necessita contaminar o ensino das ciências agrárias. Com a palavra, a universidade.

Xico Graziano, agrônomo, foi presidente do Incra (1995) e secretário da Agricultura de São Paulo (1996-98). Fonte: Estadão.

Onde achar mais informações?

http://www.brasilprofissoes.com.br/profissoes/agrônomo